“Você não pertence a esta realidade” A morte dos brasileiros no exterior.

Hoje somos cerca de 2,5 milhões de brasileiros no exterior.  Baianos, paulistas, mineiros, gaúchos espalhados pelo mundo inteiro.  E quando você sai do Brasil tem uma galera que resolve decretar o fim da sua nacionalidade. Você está morto.

“Arranca esta medalha verde e amarela do teu peito por que ela não te pertence. Seu fanfarrão”

Você não é mais brasileiro. Basta um comentário seu sobre a política nacional, futebol ou pão de queijo que os que estão em território tupiniquim logo dizem : “Desculpa, mas você não pertence mais a esta realidade. Decidiu abandonar o Brasil”.  Agora imagina a crise pra um camarada que acaba de se mudar para o Alasca. Um desterrado total. Fica sem chão.

– Primeiro por que seja qual for o país que você tenha se mudado sua integração total é quase impossível. Língua, hábitos, trejeitos, etc.

– Suas raízes e referências culturais estão enterradas em algum lugar do insólito gigante da América Latina. Como seu senso de humor, seu mal gosto para música ou seu drama ao assistir a apuração dos votos da última eleição presidencial.

Alguns até tentam disfarçar, mas um brasileiro pode ser reconhecido num único relance de olho a quilômetros de distância. Principalmente o zé carioca. Tenho amigos que reconhecem brazucas aqui pelo olfato. Sotaque então é só respirar.

Tem gente que opta pela imigração por vários motivos. Desde o abandono real de sua história, trauma, trabalho, educação, felicidade até a simples curiosidade. A lista é longa. Mas primeiro vamos aos fatos. Ao sair do Brasil você mantem direitos e deveres de cidadão brasileiro. Entre eles estão o alistamento militar, o voto obrigatório e a declaração de imposto de renda. Falta com algum deles pra ver. Passaporte caçado. Ou seja, ainda posso falar mal do pão de queijo “muchibento” ou da péssima atuação do Guarani no último campeonato paulista por que fui obrigado a justificar voto no último domingo. Colega, você não perde seu passaporte, sua aposentadoria e nem o direito a assistir o brasileirão pela globo.com quando está na gringa.

Vale também derrubar alguns mitos. Quando se envia notícias para casa ( Brasil ) tendemos as notícias valorosas, aquelas de conquistas. Tem gente que tem medo de enviar noitícias de fracassos. Mas elas existem e são muitas. A vida de imigrante é o seguinte.

– Trabalhos ruins muitas vezes fora da sua área de formação. Dificuldades com a língua. Difícil adaptação ao clima, comida e hábitos. Saudades. Falta de identificação com a cultura local. Falta de referência para a procura de bons empregos. Competitividade desleal no mercado de trabalho muitas vezes. Exploração. Falta de crédito no mercado. Documentação. E o mais difícil. Recomeçar uma vida do zero.

Tem gente que acha que imigração é uma maravilha. Tenta a sorte então. Acham que você foi sorteado na Mega Sena pelo teus belos cachos dourados e convidado a morar no Tibet que por sinal passou a ser o melhor lugar do mundo. Vida de imigrante é vida de desafios. Ralação. Uma longa jornada de reconhecimento. Papéis, medos e insegurança. É uma vida de aventura para poucos guerreiros que se metem nesta jornada. Tão difícil quanto o trabalho dos bandeirantes que aportaram há séculos no Brasil.

Mas então uma pergunta. Como determinar seu grau de envolvimento com esta nação distante chamada Brasil. Depende. Tem gente no próprio Brasil que não conhece 10% da linha evolutiva da música popular. Não conhece a história dos movimentos sociais, política, educação e aí vai. Este cara é tão estranho no Brasil quanto um americano falando “valeu mano” na zona leste de São Paulo.

Seu coração não fica limitado a fronteiras.  Então um conselho para brasileiros em ambos os lados.

Se estás no Brasil saiba que quem está fora pode te ajudar e muito. Você pode  aprender com um brasileiro no exterior. Ele pode te passar informações preciosas de projetos interessantes e comportamentos que tem dado certo nos diversos lugares do mundo. Como por exemplo uma coleta de lixo orgânico ou mesmo o comportamento na fila do banco.

Se estás na gringa saibas que nunca poderá abandonar sua origem. Nunca será outra coisa a não ser brasileiro. Você pode falar o inglês, francês ou mandarim perfeito, viver 20 anos no Himalaia e ainda assim será brasileiro. Nada te faz menos ou mais brasileiro que os outros. Quer você queira ou não. Quando comer pão com manteiga e tomar um pingado a tarde o gosto do Brasil vai invadir tua boca e a saudade encherá teu coração.  Se for amargo engula seco teu orgulho.

E se vai embarcar na imigração não entre nessa de abandonar o Brasil. Por mais que deixamos o país por muitos motivos ainda oramos por ele, ainda torcemos por ele, e estamos dispostos a ajudar mesmo distante. Ou você que abre a boca aí pra dizer torça por mim está ignorando meus sentimentos enviados a minha nação ? Então quando pensar que não faço nada por você, pense que só o fato de eu te representar aqui, de vestir o verde amarelo, de falar com sotaque português, de ser educado com os outros e de orar por você meu irmão, já é o suficiente para que você me reconheça como irmão brasileiro. Por que quando ganhamos uma medalha de honra ao mérito em Harvard todo mundo adora colocar no jornal. Brasileiro é premiado em Harvard. E saiba que se eu cometer um crime aqui vai aparecer no jornal. Cidadão canadense, de origem brasileira é preso por x ou y.

Graças a Deus o Brasil está dentro de nós e nossa brasilidade não se resume a samba, futebol e carnaval. E nem mesmo uma fronteira é capaz de encerrar nossa história eterna de amor e ódio …..

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7 Comentários

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7 Respostas para ““Você não pertence a esta realidade” A morte dos brasileiros no exterior.

  1. Moisés

    Ótimo, quando eu chegar no Quebéc quero conhecer essa gente que vem me representando aí fora e aprender a ser brasileiro…

  2. Pingback: Brasileiros Estrangeiros | Cláudio Carvalhaes

  3. Eugenia

    Nossa, fiquei muito emocionada com o seu texto, tem alguém nesse mundo que entende perfeitamente como eu me sinto! Vc falou tantas verdades, mas tantas! Alguns brasileiros morando no Brasil me dizem que sei mais sobre o Brasil do que a grande maioria dos brasileiros, mas muito mais gente me diz que estou fora, vivendo no 1o. mundo, numa muito boa e que não tenho direito de opinar pq não estou sofrendo na pele. Até irmão me “xinga” de não ser brasileira, dependendo da situação. E muitos conhecidos, assim como alguns amigos, especialmente se eu tiver uma opinião diferente da deles! No começo isso me incomodava tanto quanto o carinha que dizia, “nossa, vc já está aqui há vinte e tantos anos, então já não é nem brasileira mais”, achando que estava me fazendo o maior elogio! Hoje em dia eu não tento mais explicar, só sentir. E é intenso!

  4. Jorge Valente

    Esse texto é legal, realmente quando a gente está fora do Brasil, entra em cena uma saudade sinestésica do País. Um mero pão de queijo, uma frase, um cantarolar pode trazer tanta coisa, tanta saudade. E como a saudade pode ser corrosiva! Em pleno inverno nova-iorquino, eu sonhava que andava de ônibus no Rio de Janeiro, o vento batendo no meu rosto, entrando pela janela. No inverno americano, ninguém abre a janela pra nada, se for um inverno rigoroso. E isso explica o meu sonho, tal a associação que eu fazia entre o ônibus e a sensação prazerosa de atravessar a cidade olhando o mar. E mais: experimente pegar um ônibus na Zona Sul do Rio e você verá no mínimo 10 mulheres lindas, em trajes mínimos, se for verão. Enquanto nos EUA, naquela friaca, as mulheres só faltam entrar numa burka. E a chance de você entabular uma conversa com a gatinha no banco ao lado, se acaso ela te espiar pela burka, é igual ao frio, menos que zero. E quando você passa metade do ano sofrendo com temperaturas negativas, não é difícil sonhar o que eu sonhei. Em Nova Jersey, naquela época de VHS, os brasileiros se estapeavam nas locadoras de vídeo para conseguir capítulos das novelas brasileiras. Se estapeavam por causa da saudade, para ouvir um sotaque familiar, um sotaque da terra. Tem gente que fala sozinho só para ouvir a própria língua ou o próprio sotaque. Saudações Tanganellis, belo texto! Je vous embrace, mon ami!

  5. Perfeito!!!há alguns anos atrás, quase terminando meu curso de língua e integracao alemas, ouvi de uma colega grega sobre seu desinteresse em adquirir a cidadania alema, sob a alegacao de que ela era helenica e jamais se tornaria uma germana; confesso que à época, pensei com meus botoes: -certamente, pelo próprio ‘biotipo’ ela nao se enquadrava no ‘aspecto físico’ de um alemao, que nao era meu caso, posto que neta de alemaes. Hoje, passado algum tempo, falando um pouco melhor a língua, retornando quase que anualmente ao Brasil, mais experiencia sobre a legislacao alema em geral(advoguei durante quase 30 anos no Brasil), concluo que, eu também, com meus cabelos claros e olhos azuis, jamais deixarei de ser brasileira, ainda que fosse obrigada a dispensar minha cidadania brasileira. É algo que está acima das Constituicoes alema e brasileira. É tao forte, tao íntimo, tao avassalador que posso dizer que independe de minha vontade pessoal…

  6. Pingback: “Você não pertence a esta realidade.” A morte dos brasileiros no exterior. - OiToronto

  7. Obrigada por me descrever tão bem! Tô na gringa e decidi não votar para presidente. Não fui a Montréal, pois não queria “gastar” meu suado dinheirinho com passagem e hospedagem por uma causa que não acredito há anos.
    Por outro lado, acompanhei a contagem dos votos presidenciais pelo G1. Sofri horrores…rs! Vai entender!

    Texto fantástico, viu!
    Parabéns.

    Abraços
    Nilian

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